segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Certa vez, perdido em devaneios
encontrei-me surrado aos frangalhos
solitário como deserto
grão de areia sem oásis

estará você orgulhosa, mamãe?
conte-me mais uma vez
a parábola do filho pródigo
e explique-me quem sou
a ovelha branca ou o porto na tempestade

com minha excreta escrevi
cartas e juras de amor
numa poesia solitária
o aroma fecal importa a mim
num banho de luzes distantes demais
para alcançá-las

encontrará-me aqui
deitado nesta poça de sangue?
enquanto o papel que contém meu poema
é destruído pela chuva que cai
e cai
e cai
devagar.

minhas palavras, meus pensamentos
meu devaneio enevoado
conseguirei eu distinguir
a realidade da ilusão?

minhas entranhas saltam
estão bem debaixo do meu nariz
meu organismo frágil pede socorro
há alguém para acudir?

cá estou novamente
impotente ante a enxurrada iminente
com toda a escuridão ao meu redor
mamãe, mamãe querida
salve-se de minhas trevas.